Regimento de Voluntários de Portalegre, 1808
O Regimento de Infantaria de Voluntários de Portalegre nasce em Julho de 1808. Fruto da revolta popular contra a ocupação Francesa de Junot, a Junta Provisional de Portalegre reconhece a necessidade de levantar “um Batalhão de Tropa de Linha”, o qual seria nomeado Regimento de Voluntários Reais de Portalegre.
Jorge de Avillez, então Coronel de Milícias, “fidalgo de linhagem” (1) e rico proprietário, surge como o grande mobilizador do movimento patriótico de reação contra o invasor em Portalegre. Ao manifestar-se perante a cidade em prol da resistência, é aclamado pelo povo como seu comandante, e eleito pela Junta para comandar o recém criado Regimento de Voluntários de Portalegre. Marcha então para Campo Maior onde, juntando os seus dotes mobilizadores ao ódio popular perante invasor, consegue rapidamente preencher as fileiras com jovens entusiasmados e determinados a lutar contra o Invasor Francês.
História, contexto e uniforme.
A 20 de Julho, Avillez desloca-se a Badajoz em representação da Junta de Portalegre, com o objetivo de pedir a retirada do contingente espanhol devido à sua má conduta na praça de Campo Maior, conseguindo também adquirir pólvora, armas e munições, bem como “outros artigos de necessidade urgente” (2) para equipar e armar o seu Regimento.
Avillez virá, várias vezes, a pagar do seu bolso o soldo dos seus homens bem como o fardamento para os mesmos.
A Junta de Campo Maior temia motins nos corpos da praça, tendo já havendo indícios de tumultos no corpo de artilharia que a guarnecia, como resultado da falta de fundos públicos para pagar o soldo dos homens. Confiando na qualidade do jovem comandante, a Junta recomenda-o para o trabalho de recolher os fundos públicos das terras envolventes (Crato, Castelo de Vide, etc), dispondo cerca de 300 infantes e cavaleiros (maioritariamente espanhóis, indisciplinados e sem espírito pela causa portuguesa) para o acompanhar.
Cumprida a comissão, apesar de várias dificuldades, regressa Avillez a Campo Maior “com uma avultada soma” (3). A 27 de Agosto, aquando do seu regresso, encontra-se na praça o Tenente-general Paula Leite, então Governador das Armas do Alentejo, que se demonstra visivelmente descontente com o levantamento do Regimento de Voluntários Reais de Portalegre sem o seu conhecimento. Procura dissolvê-lo, ordenando que os seus oficiais integrem o Regimento de Infantaria Nº3 e que os restantes homens sejam “distribuídos pelos outros corpos” (4) (RI5, 8 e 20). Reconhecendo contudo o valor e qualidade de Avillez, “nomeia-o seu ajudante-general (chefe do Estado Maior)”.
Todas estas ordens deixam indignados os homens do Regimento que, a 31 de Agosto, iniciam um motim, argumentando que ou serviam neste corpo, debaixo do comando de Avillez, ou abandonavam as armas e desertavam do serviço. O tumulto é rapidamente controlado com a revogação das ordens dadas pelo Governador das Armas, sendo devolvido o comando a Avillez. Paula Leite terá proferido, sem consternação nem desagrado: “entendi mal; paciência! Conserve-se o novo regimento, e sirva! Convém prudenciar, e ceder às circunstâncias; indiscrição seria porfiar na redução determinada; como os Soldados não querem, e a ocasião os favorece, vamos com eles…” (5)
A esta altura, o regimento tinha a totalidade dos seus homens armados com armas francesas adquiridas em Badajoz, tendo algum excedente disponível para até armar outros corpos.
A 7 de Agosto, procura o Capitão-General do Algarve juntar forças a Paula Leite, com o fim de apoiar as forças de Wellesley desembarcadas na foz do Mondego. Apenas a 1 de Setembro partem as forças presentes em Campo Maior, marchando com mais de 2900 infantes, debaixo do comando do Coronel Diogo Pereira da Gama, ficando apenas reformados e doentes a guarnecer a praça.
Já a caminho, fica o contingente a saber da Capitulação Francesa, da Convenção de Sintra e suas estipulações, regressando as tropas do Alentejo para Estremoz. Aqui, Paula Leite novamente considera a dissolução dos Voluntários de Portalegre - ideia que é abandonada devido à excelente disciplina do corpo e do comando de Avillez.
Até então, via-se o Regimento de Voluntários de Portalegre sem uniforme profissional. Avillez farda os homens à sua custa, adquirindo nas fábricas da cidade de Portalegre a lã necessária.
Não sabendo exatamente o corte da casaca, podemos supor que seguiria o corte regulamentado no Plano de Uniformes do Exército, publicado a 19 de Maio de 1806. Contudo, a farda é descrita como sendo de cor Verde Garrafa (escarlate para os músicos), Guarnições Brancas (vivos), pantalonas de Saragoça (castanhas) e polainas de pano preto.
A 26 de Outubro, o Regimento contava com 445 homens prontos, de um total de 525, como se verifica no Mapa do Estado do Regimento, da mesma data. (6)
O General Paula Leite, pela terceira vez, procura a dissolução do Regimento. Avillez desloca-se a Lisboa, após pedido à Regência para ir à corte expor a situação. Foi contudo, a 28 de Outubro, que recebeu a ordem para levar o Regimento até Castelo de Vide, onde o deixa; o Regimento de Voluntários de Portalegre seria renomeado e reorganizado em Batalhão de Caçadores Nº1, de acordo com o decreto de 28 de Outubro de 1808.
Avillez, a 21 de Janeiro de 1809, teria restituído o comando do seu Corpo, agora como Batalhão de Caçadores Nº1, e com a patente de Tenente-Coronel. Ao longo de 1809, o BC1 seria expandido, integrando novos homens nas suas fileiras, mas os problemas de uniformização voltariam a recair sobre o bolso do recém nomeado Tenente-Coronel. De acordo com os registos, não haveria fardas para a totalidade dos homens já no fim de 1809, e é provável que algumas companhias tenham estado ainda fardadas com o seu antigo uniforme dos Voluntários de Portalegre.
Casa que serviu de aquartelamento ao Regimento de Voluntários de Portalegre. É atualmente a Casa-Museu José Régio. Fotografia retirada do Street View do Google Maps.
Interpretação dos uniformes do Regimento de Voluntários Reais de Portalegre, com base nas pranchas do Plano de Uniformes de 1806
Praça:
Farda Verde-Garrafa com vivos brancos, Calças Castanhas (Saragoça) e polainas pretas.
Músico:
Farda Escarlate com vivos brancos, Calças Castanhas (Saragoça) e polainas pretas.
Retrato de Jorge de Avillez
Mapa do Estado do Regimento de Infantaria de Voluntários de Portalegre, 26 de Outubro de 1808
Artigo escrito por João Pedro Duarte, Março de 2026.
Mapa do Regimento disponibilizado por João Silva, no decurso de investigação no AHM.
Revisão de Alex Alexandre.
Notas
(1) Lacerda, p. 24.
(2) Lacerda, p. 26.
(3) Lacerda, p. 30.
(4) Lacerda, p. 30.
(5) Lacerda, p. 31, proferido por Frei João Mariano.
(6) AHM-DIV-3-21-3-36
Fontes:
-Lacerda Machado, F.S de. (1931). O Tenente-General Conde de Avillez (1785-1845) I - Guerra Peninsular. Edições Pátria Gaia - Portugal
-Plano de Uniformes de 1806
-AHM-DIV-3-21-3-36
Recriação Histórica do Regimento de Voluntários de Portalegre
Mantendo a História Viva